Uma breve história do samba

curso de cavaquinhoO samba vai nascer de uma parte da sociedade brasileira que fica à margem dos planos políticos maiores, da grande sociedade, vamos dizer assim, e ela precisa inclusive recriar seus laços afetivos. No samba, você vê muito isso: tia Zica, tia Neuma. Todas as vezes que aqui, no Rio de Janeiro, teve intervenções urbanísticas grandes, houve um movimento de mudança, mesmo de território, da população negra e pobre.

Então o nascimento desse samba vem exatamente dessas pessoas tentando recriar seus laços afetivos e também de diversão: modos de viver, de socialização. Mas, de certa forma, eles nunca se viram desconectados da chamada grande sociedade. Então viviam buscando estratégias para se reconectar. Uma dessas estratégias foi criar as escolas de samba, em que blocos, que nasceram naturalmente dentro das comunidades, se uniam, se encorpavam, criando uma…Ficando melhor apresentáveis.

E imitando modelos de outras formas de organização que você tinha nas camadas mais abastadas. Essas escolas, no começo, usavam o chamado Livro de Ouro, com que buscavam apoio em pessoas, bicheiros, comerciantes, para colocarem seu Carnaval na rua. E essas pessoas acabaram entrando para as escolas de samba, tomando poderes maiores dentro desses grupos, e começaram a ditar regras nesses grupos. Do lado de fora, você também tem outra tensão social, em que esse povo do gueto começa a descer para desfilar na cidade. E esse desfile começa ocorrer exatamente no lugar de onde eles foram expulsos: Na praça Onze.

É quase uma reocupação de um lugar que era, de verdade, seu referencial de pertencimento. Importava então, para as autoridades, conhecer quem são esses negros que estão aí se espalhando, com uma coisa que deve ser interessante, porque está atraindo um público espectador – e cada vez mais, a cada ano aumentando. Havia esse certo preconceito com o samba. O samba sempre foi – não sei porquê…

O Nelson é feliz quando diz: “duramente perseguido na esquina, no botequim, no terreiro”. É verdade. Seu Carlos também falava… Como se diz? Houve a princesa Isabel, que libertou os escravos negros e tudo, mas o samba continua marginalizado. Quando podem atrasar o samba, atrasam. O Cartola foi um dos que sofreram muito. Teve um delegado de polícia que mandou arrancar as bandeirinhas – isso contado pelo próprio Carlos. “Acaba com isso aí!”. Era meia-noite, naquela época o desfile acabava cedo na Praça Onze. Aí disse que o delegado mandou arrancar todas as bandeirinhas. “Acaba com tudo isso aí!” E os camaradas todos arrancando.

Aí o Cartola foi: “A Mangueira ainda não passou…”. Rasgaram a roupa dele. Ele estava com o terninho da ala dos compositores. Rasgaram a roupa dele. Ele foi à leiteria. Tinha uma leiteria ali na Mangueira. Ficou ali triste, chateado. E o Carlos consolando ele. O Carlos ficava me contado essas coisas, que teve um major do exército que foi ser presidente da União das Escolas de Samba. Olha que história bonita!

Aí o samba começa a sair da marginalidade. Teve um delegado que se chamava Dulcídio Gonçalves.Um delegado que exigiu das escolas de samba assim…que falassem dos vultos, sabe? Da história do Brasil. Porque as escolas de samba não tinham enredo. Naquela época, era samba falando de mulher. Outros falando, como o Cartola – esse samba foi enredo da Mangueira –, “Não Quero Mais Amar a Ninguém”. Era samba assim, cantava no terreiro, aquele que aprendia mais era que descia. Então esse delegado exigiu que as escolas de samba falassem dos vultos e efemérides do Brasil, compreendeu?

Aí começam a vir José de Alencar, Marcílio Dias, o Marinheiro, Duque de Caxias e tal. As escolas passaram a se unir. Mas, antigamente, era samba falando de mulher. A Portela desfilou:

“Lá vem ela,chorando
O que que ela quer
Pancada não é, já dei.
Mulher da orgia quando começa a chorar
Quer dinheiro, dinheiro não há”

E ia a Portela por ali. E o Cartola: “Quem me vê sorrindo pensa…”. Compreendeu? Nessa linha. Grêmio Recreativo, as escolas passaram a ter um Gres. Todas as escolas tinham um Gres na frente. Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira. Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela. Grêmio Recreativo Escola de Samba Salgueiro, e por aí. Então as coisas começam…

O tipo de samba, o ritmo de samba que o Cartola fazia na Mangueira fazia na Portela, fazia no Salgueiro, mas vem a mudança; as coisas mudam.
Eu tenho a impressão de que a coisa começou a mudar quando a classe média começou a invadir as escolas de samba. Por quê? Porque a noite carioca foi caindo, foi caindo, foi caindo…Crescendo também…

Eles descobriram que as escolas de samba eram um espetáculo grátis. Do bom! E foram para a escola. Minaram as escolas até botá-las no sentido que estão. Pelo menos, é a minha opinião. Minaram a escola. Hoje, na escola de samba, só se canta samba-enredo, não se canta mais samba de terreiro. Não adianta fazer concurso de samba de quadra porque não adianta. O próprio compositor da escola, se faz um samba de quadra, não cantam. Então o Cartola disse uma vez assim: “Não. Eu faço samba para as pessoas ouvirem calmamente”.

O Cartola, por exemplo, na década de 1940, quando a Mangueira estava sob uma presidência que queria levar uma mudança para o tipo de música que a Mangueira queria desfilar, ele resolve sair da Mangueira, se afastar da Mangueira, mas, de qualquer maneira, ele nunca deixou de ter a preocupação com a Mangueira. E eu vejo isso: A consciência que ele tinha da importância dele enquanto compositor da sua obra fazia com que: “Não importa se isso vai me fazer sair desse sistema, mas eu não vou mudar a forma de compor, nem a forma de pensar”.

Uma coisa que tinha aqui na Mangueira eram os compositores Hélio Turco, Padeirinho… certos compositores daqui, uns eram fãs dele. O Hélio Turco, por exemplo, não. Se o Hélio Turco pudesse botar o Cartola lá embaixo, ele botava, só que ele não conseguia. Porque ele também era um bom compositor, mas tinha raiva do Cartola porque Cartola era um sambista de morro e não fazia essas coisas muito de…O samba dele sempre teve aquela…Como que se diz? Sempre foi samba fino…

Tanto que teve uma ocasião em que cismaram que o Cartola fizesse samba-enredo. Isso já no final. O Cartola falou: “Olha, eu não me dou com isso porque eu não me dou com esse ritmo de música. Comigo tem que ser coisa…”. “Ah, mas faz um, faz?” Aí ele fez. Aquele que ele fez, o “Tempos Idos”. O Hélio Turco, que era um dos julgadores, deu zero para o samba. Deu zero porque disse que aquilo não era samba para a disputa. De fato, é um samba lento. Nesse tempo em que ele fez, o samba ainda era meio lento, mas não era como é hoje, mas mesmo assim já não servia mais para…Mas ele falava assim: “Só sei fazer assim. Se servir, vocês aproveitam, se não servir, joga fora”. Aí o Hélio Turco deu zero. Nem por isso ficou de mal, ninguém ficou de mal, não. Ficou todo mundo bem.

Era assim!

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